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Lobato é nosso!

Familiares doam à Unicamp o acervo pessoal do autor de “Sítio do Picapau Amarelo”, com preciosidades que estão sendo disponibilizadas ao público

TATIANA FÁVARO

Divulgação

Unicamp cuida de acervo de
escritor em comodato

Um pedaço de papel no qual embrulhou-se um sanduíche foi suficiente para que Monteiro Lobato espremesse a letra e fizesse sua declaração de amor. E mantivesse a caligrafia cheia de capricho, apesar da difuldade para derramar sua paixão no papel, às escondidas. Sempre alerta, afinal de contas, a missiva foi escrita na cela de uma solitária, em pleno Estado Novo.

Confissões, explicações. Arrependimento. E o desespero de trombar com a incomunicabilidade - pena de morte para quem escreveu, fotografou, pintou, discursou, editou, liderou e sonhou com o progresso.

A mistura de sentimentos que oscilavam tão facilmente naquele cubículo, de vontades comuns às da mulher amada e da tentativa de derrubar o obstáculo chamado isolamento fizeram dessa carta de Monteiro Lobato à sua mulher, Maria Pureza da Natividade, uma obra de arte.

Escrita na prisão, em 1941, fez parte do acervo pessoal do escritor, vasto tesouro doado à Unicamp em novembro de 2001 e à disposição do público para um mergulho à boa parte da história cultural e política do País.

O documento entregue a Purezinha em situação mais que adversa é um dos tantos guardados pela mulher que amou e acompanhou Lobato até o fim de sua vida, em 4 de julho de 1948.

Outras correspondências, de 1906, 1907 e 1908 - ano em que se casaram -, demonstram o carinho e o cuidado com cada lembrança do namorado, então promotor na pequena cidade de Areias.

Envolvidas em papel celofane e com as bordas alinhavadas com a precisão de uma máquina de costura, as mensagens de Lobato foram guardadas pela moça e se tornaram parte da herança deixada à família. E doada à Unicamp.

Garimpagem e negociação - Foram quase dois anos de negociação entre Unicamp e os familiares de Monteiro Lobato. Tempo curto para a doação – e não comercialização – de um acervo tão rico e importante para a história da literatura brasileira, ao Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL).

“Quando a família manifestou o interesse em doar o material para a Universidade, quase caímos de costas”, lembra Flávia Carneiro Leão, supervisora do Cedae.

Por enquanto, é um acordo de comodato, com promessa de doação. Uma cláusula do contrato determina que, se em cinco anos os documentos não estiverem organizados, os familiares terão autorização para retomá-los.

“Isso não vai acontecer. Não só porque já estamos trabalhando com o acervo, mas também porque apresentamos um projeto à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que foi aprovado, solicitando recursos para a organização desse tesouro. A partir deste ano teremos apoio para cuidar do material”, explica Flávia.

Igualmente com dinheiro da Fapesp, foram compradas, em 1999, muitas das primeiras edições das obras de Lobato. A chamada Coleção Biblioteca Lobatiana é composta por obras do autor e referentes a ele, traduções de livros feitas por ele e de autores como Rudyard Kipling, Grimm, Andersen, Jack London, além de correspondências, aquarelas, revistas, adaptações de sua obra, almanaques e folhetos.

A pesquisadora Cilza Bignotto, utilizando verba de reserva técnica disponibilizada pela Fapesp, também adquiriu raridades encontradas nas mãos de um vendedor ambulante, na cidade de Santos.

Cilza teve a sorte de descobrir a mina quando concluía seu mestrado, sob orientação da professora Marisa Lajolo, conhecida nos corredores do IEL como imbatível “lobatóloga”.

Foi na mostra organizada para anunciar a chegada desta coleção encontrada na Baixa Santista, que a neta do escritor, Joyce Campos, e seu marido Jerzy Kornbluh, demonstraram interesse em doar o acervo guardado na residência do casal, no Jardim Paulistano, em São Paulo.

Segundo Joyce, caso o acordo seja cumprido, o restante da herança deixada por Lobato, que ficou nesta casa da Capital, também será doado à Unicamp. O que inclui, além de algumas fotos, aquarelas e livros que não chegaram ao Cedae na primeira remessa, a mobília da Fazenda Buquira, propriedade próxima a Taubaté, que Lobato herdou em 1911 com a morte de seu avô, José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé. (veja abaixo entrevista com a neta do escritor)

Riqueza – Decidida a doação, deu-se início ao que pode ser chamado de garimpo. A supervisora do Cedae, Flávia Carneiro Leão, passou a freqüentar a residência de Joyce e Jerzy para preparar a transferência do acervo para a Universidade.

Separar, acondicionar, listar e organizar são verbos que Flávia conjugou inin-terruptamente, por quase dois meses a fio. “Esse é um momento importante do trabalho, o da transferência dos documentos, o de como você encontra o acervo, observando quais documentos estão juntos ou separados. Parece simples, mas exige cuidado extremo, pois é nesta fase que informações podem ser pedidas”, explica.

A mesma surpresa que tomou conta de Flávia durante o contato com o acervo vai se transferir aos visitantes do Cedae. “É um tesouro incrível. Meu conhecimento sobre Lobato era o mesmo da maioria das pessoas: vinha de leituras de criança, do Sítio do Picapau Amarelo, do que se sabe sobre a vida dele quando se estuda literatura na escola”, recorda a supervisora.

A multiplicidade admirável de uma personalidade extremamente ativa do Lobato político, editor, pintor, desenhista, tradutor, fotógrafo, documentalista, progressista, encantou Flávia Leão.

Entre os documentos há registros do menino José Renato Monteiro Lobato, nascido em 18 de abril de 1882, em Taubaté. Juca, como era tratado mesmo depois de mudar seu nome para José Bento, em cada pequena obra já mostrava seu potencial. Ele foi para a Faculdade de Direito em 1900. Ali começou a desempenhar sua história política e literária, liderando grupos como o Arcádia Acadêmica e O Cenáculo, até tornar-se figura inesquecível no País.


‘Matado’ por Mário de Andrade

De espírito arrojado e olhar atento às oportunidades, Monteiro Lobato munia-se sempre da ironia. Quando foi nomeado adido comercial brasileiro em Nova York, para onde se mudou em 1927, continuou mantendo contato com os escritores Oswald e Mário de Andrade.

Com Oswald, preservou uma relação cordial, que jogou por terra a insinuação de rixa entre os modernistas. Quanto a Mário, não se pode dizer o mesmo.

Naquele ano de 27, com a saída do país de Lobato, Mário de Andrade mandou publicar uma nota de óbito com o nome do rival, em um jornal brasileiro.

Dos EUA, então em 1930, Lobato mandou carta a Mário, oferecendo-lhe a chance de publicar “Macunaíma” fora das terras brasileiras. Sarcástico, escreveu que o colega modernista não deveria se assustar com a carta “vinda d’além túmulo”:

“(...) Há de tudo na vida, até mortos que escrevem cartas aos matadores. O que me traz é um livro seu, Macunaíma. Tenho cá um editor que deseja conhecê-lo, com palpite de que a coisa é editável em inglês (...). Se achar que um morto pode representar um vivíssimo, mande também a autorização para eu tratar com o homem. É incrível como dá voltas o mundo! Vou eu ajudar Mário a publicar-se neste país e ajudar na produção. Vou sair da cova só pra isso. Depois me recolherei de novo, porque não existir é a delícia das delícias, meu caro Mário. Hurry up. Manda logo dois exemplares. Depressa. De seu matado, Monteiro Lobato”. (T.F.)


Tão bisbilhoteira quanto Emília

Divulgação

Cilza: garimpagem num porão em Santos

Curiosidade de Emília. Foi esta característica da jornalista e pesquisadora Cilza Bignotto uma das principais alavancas - se não a principal - no processo de negociação e doação do arquivo pessoal de Monteiro Lobato ao Cedae.

Em 1997, quatro anos depois de se formar em jornalismo, ela decidiu que não era esse o caminho a seguir na vida. Queria voltar a estudar, de preferência na Unicamp.

Como a primeira oportunidade de contato com a Universidade era um concurso para a vaga de técnica em informática, não hesitou.

Fez a prova, passou e logo estava se enveredando nas trincheiras da pesquisa literária, pelas mãos da professora Marisa Lajolo, que lhe deu a oportunidade de construir um site dentro do Projeto Memória de Leitura.

Três anos depois, Cilza prestou novo concurso, desta vez para o mestrado em Teoria Literária. Não teve dúvidas na hora de escolher o tema para seu projeto: Monteiro Lobato.

Lembrou-se de quando, ainda menina, puxou da estante da biblioteca de Santa Bárbara D’Oeste, sua cidade natal, o livro “Negrinha”. Aos 10 anos de idade, já conhecia a menina do nariz arrebitado e achou que a personagem da obra, voltada para adultos, fosse uma Narizinho negra.

Curiosidade de Emília. “Por ser de Lobato, estava entre os livros para crianças. Quis ver o que era e, na verdade, tratava-se da história de uma filha de escravos. Um conto de tema horripilante, triste, mas que depois de lido tornou-se para mim um libelo contra o racismo”, recorda.

Cilza leu sentada no chão, de um só fôlego, e chorou. “Não li mais o livro depois de adulta e fui abri-lo apenas durante o mestrado, tamanha a impressão que meu causou”.

A experiência de leitura ficou tão nítida na memória, durante tanto tempo, que a pesquisadora delimitou o tema de sua tese a uma comparação entre as personagens infantis criadas por Lobato: aquelas da literatura dirigida a crianças com aquelas para adultos.

Empreitada – Cilza Bignotto embrenhou-se em bibliotecas e arquivos, atrás das primeiras publicações do escritor. “Era uma tarefa muito difícil. As edições – que eram sempre alteradas por Lobato – eram muito difíceis de encontrar. Percebi como existem bibliotecas jogando preciosidades fora, por serem velhas”, conta.

Assim como ocorre com os bolsistas da Fapesp, a pesquisadora conseguiu verba para a compra de material, participação em congressos, viagens, mas não a utilizou no primeiro momento. Guardou boa parte, sem saber o que a aguardava.

Em Santos, onde morou por um tempo durante o mestrado, descobriu um verdadeiro tesouro. Um dia, andando pela Avenida Conselheiro Nébias, uma das principais da cidade, viu um rapaz vendendo cartões, moedas, livros e outras antiguidades, debaixo da marquise de um prédio. Aproximou-se por instinto da banca de Luís Martins. Curiosidade de Emília.

Ao passar os olhos sobre os títulos espalhados sobre uma mesa de armar, percebeu obras raras de Monteiro Lobato. “A preço de banana”, surpreendeu-se Cilza, lembrando que havia livros a partir de R$ 2,00. “De imediato, perguntei ao rapaz aonde tinha encontrado aqueles títulos e ele disse que tinham pertencido a um colecionador”, recorda, com o mesmo misto de ansiedade e entusiasmo que sentiu naquele dia.

O dono da mina havia sido Newton Nebel dos Santos, que dedicou sua via a colecionar tudo o que tivesse pertencido a Lobato, o que incluía, claro, praticamente todas as suas obras.

“Ele chegou a montar um pequeno museu em Santos, para mostrar algumas correspondências de Lobato, originais de ilustrações para livros (feitas por Belmont), aquarelas e quase todas as edições”, conta a pesquisadora.

Coisas no porão – Luís Martins, o vendedor de moedas e selos, não tinha idéia do valor de mercado dos títulos em cima da mesa, mas sabia que eram importantes para a história da literatura brasileira, motivo pelo qual os comprara da família de Newton. “Ele me disse que havia mais coisas num porão, na casa do irmão”, lembra a pesquisadora.

Devagar, o livreiro foi percebendo o interesse crescente de Cilza em conhecer o material e acabou convidando-a para ir até o local em que estava o patrimônio, praticamente esquecido.

Era um porão antigo, escuro, com apenas um metro de altura. Para entrar, Cilza o fez quase deitada. Agachada, de cócoras ou engatinhando, teve de ser ágil, conferindo o que ali estava guardado e ao mesmo tempo driblar ratos e baratas. “Na hora, nem prestei atenção nos bichos. Só pensei em tirar os livros antes que virassem poeira”.

Cilza procurou ser direta nas negociações com o comerciante: gostaria que os livros fossem preservados e aquele não era o ambiente ideal para manter o material. “Expliquei que era pesquisadora da Unicamp e falei do meu interesse em recuperar aquele tesouro”.

E Martins concordou em vender livros, aquarelas, revistas e o que mais restasse no porão por preço quase igual ao que pagou pelo material, a fim de que a coleção recebesse tratamento adequado e servisse ao estudo da obra lobatiana, por meio da Unicamp.

Por 500 volumes, cobrou R$ 2 mil, preço que se paga por um ou dois volumes raros de Monteiro Lobato em sebos da Capital. Em meio a diamantes brutos, havia primeiras edições, traduções, “O Sítio do Picapau Amarelo” em russo, revistas com textos do escritor, entre outros.

Verba pública para o bem público - O dinheiro da Fapesp foi muito bem empregado, avalia Cilza Bignotto. Mais que isso, ela decidiu colocar as preciosidades de Monteiro Lobato ao alcance do público, usando verba da Fapesp para poder doar ao Cedae tudo o que comprou em Santos.

“Muita gente me criticou por não comprar as obras para mim, mas para a Unicamp, já que eram tão baratas. Mas pensei que era uma boa chance de colaborar com a democratização do conhecimento, gastando a verba pública num bem para a comunidade”.

Os membros do Cedae receberam o material e organizaram uma exposição para lançar o que chamaram de “Coleção Biblioteca Lobatiana”. Por ter contato com familiares do escritor, a professora Marisa Lajolo achou por bem convidá-los para o evento.

Assim, a neta de Lobato, Joyce Campos, e seu marido, Jerzy (Jorge) Kornbluh, souberam do esforço de pesquisadores do IEL para resgatar a obra de Lobato e conheceram as técnicas do Cedae para recuperação, organização e conservação do acervo.

E sinalizaram com o interesse em doar para a Unicamp o restante do arquivo do escritor e de Maria Pureza da Natividade, guardado na residência da neta em São Paulo.

O material descoberto por Cilza Bignotto, que já estava à disposição do público, ganhou corpo com a negociação do acervo guardado com os Kornbluh, apesar de os arquivos estarem separados.

A pesquisadora ainda se embaraça quando tenta explicar o que sentiu ao se ver diante daquelas raridades. “Lobato me ajudou a crescer. A aventura e a didática, na infância; a formação de valores, ao longo da vida. Com ele aprendi a ser mais crítica e questionadora”. E, para sorte de todos, curiosa como Emília. (T.F.)


Joyce e as memórias de
sua infância com Lobato

A neta do escritor venerava o homem aventureiro e divertido, mas revela que ele não era um avô do tipo afetuoso, apesar de escrever para crianças: 'Nunca me pôs no colo'

TATIANA FÁVARO

Foto: Tatiana Fávaro

Joyce já aprendeu com a difícil profissão: ser neta de Lobato

Encravada numa estrada vicinal da Rodovia Anhangüera, em Americana, a chácara de Joyce Campos, neta de Monteiro Lobato, em nada se parece com o Sítio do Picapau Amarelo. Cães ferozes latem no portão, mas a casa é envolta em calmaria, sem a algazarra de crianças.

Ali é um lugar real, não há fantasia. E Joyce, apesar dos 71 anos de idade, do amor incondicional ao neto, do cuidado com a natureza e dos cabelos brancos, tampouco lembra Dona Benta.

De estilo mais moderno que o da personagem famosa, Joyce veste bata branca e calça da mesma cor, em tecido leve de algodão. Nos pés, tênis floridos.

E, no semblante, olhos atentos e um sorriso que não se apaga. De criança "reinadeira" a avó dedicada, sempre carregou o peso de um sobrenome que sequer está no papel. "Exigiam que a neta de Lobato fosse a melhor, e isso é muito cansativo", reclama."

É uma das profissões mais difíceis do mundo: ser parente dele". Ofício que ela compartilha com o marido, Jerzy Kornbluh - que prefere ser chamado de "Jorge" e hoje administra o patrimônio deixado pelo escritor à família, inclusive os direitos autorais sobre suas obras.

Assim como sua chácara não é o "Sítio do Picapau Amarelo", Joyce não é personagem do legado lobatiano. Sua relação com o avô não se deu como a maioria das pessoas imagina. Além de viajar muito, como durante a campanha do petróleo, Lobato não era do tipo afetuoso. "Nunca me pôs no colo".

A falta de um avô que a embalasse, contudo, não impediu Joyce de respeitar e venerar a figura de um homem aventureiro e divertido. "Só tive noção da dimensão da obra dele depois de sua morte.

A gente admira o avô porque é avô, não porque é Monteiro Lobato", argumenta. Lembra-se do escritor como um sujeito que não se abalava e cuja teoria era simples: "Remédio pra tudo, é chapéu", dizia ele, quando, diante de um problema, protegia a cabeça do sol e saía para caminhar e pensar na vida.

Joyce, ao lado de Jorge, mostrou para o Jornal da Unicamp um pouco mais sobre o Lobato escritor, fotógrafo, pintor e eterno amante do progresso.

Sob o olhar serelepe da senhora, que quando menina entrava naqueles caixotes de madeira onde eram guardados os livros do avô, a cada mudança de residência, a cada viagem.

Ao invés da sala de estar de Dona Benta, a entrevista ocorreu em uma varanda cheia de gaiolas de tamanhos diversos, com aves coloridas, mas feitas de "durepox" ou madeira. "Sempre gostei de gaiolas, mas só como enfeite. Os passarinhos devem viver fora delas".

A simpatia de Joyce e suas histórias contadas sem pressa iluminaram de fantasia a manhã de domingo. Ao som de passarinhos, sim, que cantavam do lado de fora da casa, longe das gaiolas, como ela gosta.

Jornal da Unicamp - O que levou a família a doar o acervo pessoal de Lobato?
Jerzy (Jorge) Kornbluh - Um dia, a professora Marisa Lajolo (da Unicamp) apareceu em casa porque precisava consultar o arquivo que Dona Purezinha tinha preservado. Pusemos a papelada à disposição e, quando ela terminou a consulta, disse: "Isso é um tesouro. Vocês deveriam preservá-lo". Como nossa filha mora nos Estados Unidos - teve o mau gosto de se casar com um gringo (sorri com ironia) -, nós achamos que não seria má idéia. Resolvemos fazer a doação para a Unicamp depois de uma visita ao Cedae, com o período probatório de cinco anos para que a Universidade demonstre com fatos o cumprimento do que está escrito em contrato. O material estava em nossa casa, em São Paulo. Dona Purezinha morreu em 1958 e a papelada ficou com sua filha mais nova, Ruth Monteiro Lobato, que faleceu em 1972. Daí passou para dona Marta (Lobato Campos), minha sogra, a melhor sogra do mundo, porque tinha maravilhoso senso de humor.
Joyce Campos - Dona Purezinha teve um cuidado que nem minha tia Ruth, nem minha mãe e nem eu tivemos, quando herdamos tudo isso. Com a morte de meu pai, herdei toda a papelada dele, de minha tia e da minha mãe. Era muita coisa. Realmente, eu enfiei num lugar, fechei a porta e nunca mais olhei. Essa é a verdade. Fora isso, existe toda a mobília que foi do Visconde de Tremembé (avô do meu avô), que também vai para a Unicamp após a nossa morte. Não quero deixar para minha filha ou outro herdeiro, pois eles não estão afinados com nossa idéia de que isso não é para ser vendido. Era a mobília da Fazenda Buquira, que acompanhou Monteiro Lobato depois da morte do Visconde.

JU - A senhora ficou com parte do acervo?
Joyce -
Fiquei com seis aquarelas, que me lembram coisas. A de uma torre da igreja de Campos do Jordão, outra que mostra um urubu secando as asas em cima de um telhado. Esta ficou comigo porque houve um episódio em São José dos Campos com meu avô, que me marcou. Fomos ao mercado e ele me comprou uma fieira de lambaris - aquela armação de bambu, redonda, onde os peixes ficam espetados. Ele amarrou uma cordinha e eu vim puxando pela terra, como se fosse um carrinho. Nisso fui atacada por um bando de urubus, que queriam meus peixinhos. Meu avô morria de rir, foi realmente uma cena muito engraçada. Os urubus tentavam voar, puxavam de um lado e eu do outro. E não é que eles ganharam? Foi o maior escândalo. Chorei, chorei e ganhei um pedaço de rapadura para chupar. Fiquei também com alguns álbuns e espero que, até a minha morte, um dos herdeiros se interesse em ficar com eles. Até agora, ninguém foi ver.

JU - No acervo doado à Unicamp, há uma foto em que Lobato está na Graded School, em São Paulo, numa apresentação da montagem do "Sítio do Picapau Amarelo", onde a senhora é a Tia Nastácia. Quando foi isso?
Joyce -
É imperdoável, mas eu nasci nos EUA (risos), quando meu avô estava como adido comercial em Nova York. Meus pais se conheceram e se casaram lá e não pretendiam voltar ao Brasil. Mas, por conta da Revolução de 32, resolveram voltar. Eu tinha dez meses. Meu pai (Jurandir Ubirajara Campos) ainda queria retornar aos EUA. Começou a segunda guerra, ficamos e, nesse tempo, estudei numa escola americana em São Paulo. Em 1941 saí e fui para o Mackenzie, onde me formei arquiteta. No último ano na American Graded School, encenamos uma peça. Eu tinha uma professora de português, dona Olga, que era fã de Monteiro Lobato e descobriu que eu era neta dele. Resolveu ensaiar uma peça na qual fui obrigada a fazer o papel de Tia Anastácia, porque já era maiorzinha que as outras crianças. Os desenhos, os figurinos, foram todos desenhados por mim. E convidaram meu avô para assistir.

JU - Como assim, obrigada a fazer o papel?
Joyce -
Eu podia ser artista no desenho, mas era tímida. E sempre teve aquela coisa de exigirem mais, por eu ser neta de Monteiro Lobato. Apesar de não levar o nome - sou Joyce Campos, apenas - os professores de português exigiam que a neta de Lobato fosse a melhor. É muito chato, muito pesado. Lembro-me de quando fazíamos as composições, descrições... Sempre o professor me chamava: "Dona Joyce, leia a sua". Por que? Neta de Lobato! Meu primo Rodrigo, que leva o sobrenome Monteiro Lobato, ficou fora de si com a perseguição. Ficou revoltado. Em todos os colégios de São Paulo e Taubaté, ele foi perseguido. É uma das profissões mais difíceis do mundo: ser parente de Lobato.

JU - Como era seu relacionamento com ele?
Joyce -
Não foi uma relação intensa, como todo mundo pensa. Houve épocas em que ela foi próxima, em outras não. Ele vivia viajando, principalmente durante a campanha do petróleo. Morava na casa dele, eu na dos meus pais. Meu avô nunca foi afetuoso. A sensibilidade que demonstra na obra é uma coisa. Todos pensam que, por ele ter escrito para crianças, era aquele avô que mima. Mas não. Ele me tratava como adulta. Tinha conversas que obrigavam, a mim e a outras crianças (amigas e vizinhas), a pensar. Muita gente viu foto dele com crianças no colo e acha que ele era assim. Mas nunca fiquei no colo dele. Aquilo era pose para fotografia. Ele gostava de crianças, mas quando elas eram inteligentes, falantes, até pernósticas. Eu tinha muito ciúme das outras meninas. Seu pudesse estrangular, estrangulava, estou sendo honesta. Passeávamos juntos, mas nunca de mãos dadas. Primeiro, porque eu saía correndo, e outra porque ele não era disso. Meu avô nunca me deu bronca, nunca se exaltou comigo e eu era uma criança tremendamente reinadeira. Não era malcriada, mas tinha imaginação fértil para fazer coisas esquisitas.

JU - O que a senhora leu da obra de Lobato?
Joyce -
Li tudo. O que devia e o que não devia. Há livros que não li totalmente, porque participei da confecção. Eu tinha outro hábito, de dormir com ele e minha avó, na cama deles, mesmo depois de grandinha, já com 11, 12 anos. E meu avô lia trechos dos livros que estava escrevendo, perguntando o que a gente achava. Então, esses eu não li, porque já sabia o que ia acontecer. "Reforma da Natureza", por exemplo, li bem mais tarde - na época achei que era dona do livro, tipo de besteira que criança inventa.

JU - Algum a marcou em especial?
Joyce -
Alguns. Do "Histórias de Tia Nastácia", por exemplo, eu tenho horror, porque aprendi a ler nele, com 5 anos. Quem me ensinou a ler foi meu pai e ele era muito exigente. Tabuada, até hoje eu tenho na ponta da língua. Se você errava, ele dava um coque na cabeça. Minha cabeça até hoje é dolorida... terrível (risos). Minha cartilha foi "Histórias de Tia Nastácia". E eu ficava apavorada para ler, porque já sabia que vinha um coque. Eu errava e pronto: coque! Então, era um suplício. Muitas vezes lia metade da história de jeito normal, metade chorando. Nunca mais esqueci esse livro. Depois, do que mais gosto é "Reforma da Natureza", que ouvi na cama, com minha avó e meu avô. Outros com os quais aprendi muito foram "Os Doze Trabalhos de Hércules" e "O Minotauro".

JU - A partir de quando a senhora passou a ter consciência da dimensão da obra de Lobato?
Joyce -
Só depois que ele morreu. A gente admira o avô porque é avô, não porque é Monteiro Lobato. Ele era uma pessoa que não se abalava. Tinha uma teoria que dizia: "remédio pra tudo, é chapéu". Quando tinha um problema, pegava o chapéu, ia pra rua e, depois que passava tudo, ele voltava. Era contador de casos. Convencia as pessoas a aplicar todos os tostões de suas vidas em um negócio. Nunca o vi se queixar de nada, apesar dos problemas. Chegava para minha avó e dizia: "Purezinha, vamos mudar para o Rio". Ela perguntava: "E a mobília?". E ele respondia: "Leilão, Purezinha, leilão". Quem salvou o arquivo pessoal dele foi minha avó. Então, era isso: ele era meu avô, um aventureiro, divertido. E quando você está numa família onde as pessoas fazem coisas diferentes, você aceita. E era meu ideal ser como meu avô, como meu pai. Exceto escrever. Peguei ojeriza, porque eu tinha que escrever melhor que os outros e isso é muito chato. Eu era a primeira da classe, mas era uma coisa horrível. Se eu voltasse (no tempo), queria ser a última.

JU - E o relacionamento entre os Lobato hoje, como é?
Joyce -
Não tenho irmãos. Tenho um primo-irmão, Rodrigo, que tinha 4 anos quando o seu pai, Edgar, um dos filhos de Lobato, morreu. Minha avó foi morar com esse filho doente, perto de Taubaté. Meus avós tiveram quatro filhos. A mais velha era minha mãe, a que mais durou. Depois veio o Edgar, Guilherme (que faleceu aos 24 anos) e Ruth (que não se casou e morreu em 72, aos 54 anos). A morte prematura dos dois filhos abalou a vida de Monteiro Lobato e de Dona Purezinha. Tenho uma filha que mora dos Estados Unidos. Tenho um neto, deficiente físico, que mora com o primeiro marido da minha filha e passa os finais de semana conosco. Eu faço o papel de mãe. Minha filha foi refazer a vida dela, casou-se de novo, trabalha, mas filhos ela não teve mais. Agora já está com 42 anos.


JU - A senhora sente falta de crianças correndo pela casa?
Joyce -
Claro que sim, muita falta. Mas, se não tem, vou fazer o quê? Me dedico a meu netinho, que é uma flor. Ele foi levado a todos os hospitais, inclusive ao mais famoso dos EUA (o John Hopkin), em Baltimore, e não conseguiram descobrir porque é deficiente físico. A única coisa que funciona é a cabeça dele - e até hoje não cheguei a uma conclusão se isto é bom ou ruim. Deve ser horrível entender tudo e não conseguir fazer nada. Ele não fala. Se expressa com os olhos, criou uma linguagem que a gente entende. Está com 11 anos, namora, gosta de loiras (ri). E entende de cores, números. O sorriso dele é a coisa mais gratificante que existe pra mim. Ilumina. As pessoas que convivem com ele ficam apaixonadas.

JU - Qual a opinião da senhora sobre a nova versão do "Sítio do Picapau Amarelo"?
Joyce -
Gosto. Não sou saudosista. A partir de 1967, Jorge passou a cuidar do arquivo pessoal de Lobato e, em 76, assinou o primeiro contrato com a Globo em torno do "Sítio". O grande herdeiro é o meu marido, porque ele segurou tudo.
Jorge - As principais fontes de recursos dos herdeiros, hoje, são os direitos autorais dos livros e do licenciamento, que só foi possível por estar atrelado a um veículo como a televisão. Chegamos a ter 10, 11 licenciados sem a tevê. Com a Globo, nossa agente exclusiva, temos mais de 30. Agora são os fabricantes que procuram a Globo para pedir licenciamento. Quanto ao "Sítio", eu acho magnífico o que estão fazendo. Ao contrário de algumas pessoas, que dizem ser absurdo a Dona Benta na Internet, eu acho perfeitamente normal, porque se Lobato fosse vivo estaria fazendo isso. Em 1920, ele falava num livro sobre um aparelho que existirá no mundo, chamado "porviroscópio", por onde se vê o que está por vir. Ele estava sempre um passo à frente, seja no campo técnico ou artístico. Foi um dos mais competentes críticos de arte e era novidadeiro, progressista. E o novo "Sítio" está dentro do que a gente pensa que seja a cabeça de Lobato. Se você ligar para a minha casa entre 11h30 e meio-dia, a secretária eletrônica vai dizer: "No momento não posso atender, estou assistindo ao Sítio do Picapau Amarelo. Favor ligar mais tarde".

JU - O que a senhora lê atualmente?
Joyce -
Leio o que gosto. Mais literatura estrangeira. Mitologia, história. Li o "Harry Potter", para ver o que as crianças estão lendo. E cheguei à conclusão de que tudo o que eu queria fazer quando criança está ali. Gostei porque o livro trabalha com a imaginação. A diferença em relação aos livros infantis de Lobato é que ele, além de provocar a imaginação, ensinava alguma coisa. "Harry Potter" não ensina nada, só a fazer aquilo que não se deve. Mas criança gosta.

JU - Qual a opinião da senhora sobre as crianças de hoje?
Joyce -
Me recuso a dar essa opinião, porque não as entendo. Até os 4 anos, tudo bem; mas aos 10, hoje, elas já são adolescentes.

 

Publicada no Jornal da Unicamp em abril de 2002.